Lisboa vai mesmo ser arrasada
Sistema | Novembro 18, 2007Há uma cidade alagada no caos provocado pelo aquecimento global e consequente degelo glaciar. Há eléctricos desfeitos e ruínas no Terreiro do Paço. Lisboa, cidade-ilha destroçada ou futurista, é cenário de Ugo Volt, (talvez) o primeiro jogo português a correr na Xbox 360
Por Hélder Beja
É um jogo mas, para Al Gore e toda uma legião de cientistas, a essência de Ugo Volt pode muito bem ser vista como plausível: o aquecimento global dispara, o nível das águas do mar sobe; parte da população mundial é salva pela única empresa capaz de erigir cidades acima do nível das águas; Lisboa é uma dessas cidades. O jogo começa aqui.
Começa o jogo mas não a história. O conceito de Ugo Volt, primeiro jogo português a almejar chegar às Xbox 360 de todo o planeta, nasce em 2000 na cabeça de um talentoso puto madeirense de 17 anos. Rogério Varela, hoje com 25, conta ao SEXTA que quis «fazer um jogo futurista que focasse questões muito discutidas, como o aquecimento global». Ao mote dado pela hecatombe ambiental da Terra, juntam-se trejeitos orwellianos: as liberdades individuais dos cidadãos anulam-se progressivamente conforme emerge um poder ditatorial do qual todos dependem para sobreviver.
Dos cenários, diz Rodrigo que no começo não tinham sequer «a cidade de Lisboa como presença obrigatória no jogo», uma vez que temia que «não tivesse interesse internacional». Porém, quando das primeiras apresentações públicas do jogo ? em 2004, na Game Connection (França); e em 2006, na Electronic Entertainment (EUA) ?, Ugo Volt e, particularmente, a ideia de parte do jogo se passar na capital portuguesa «teve um excelente feedback», lembra Rodrigo.
Muita acção e três finais
Não se pense que tudo é sombrio e lisboeta no jogo da Move Interactive, nome da empresa que nasceu na Madeira em 2001 mas que está sediada em Cascais há dois anos. O criador de Ugo Volt explica: «Todas as missões terão lugar em áreas completamente distintas, incluindo uma cidade futurista totalmente intacta.» Depois, «o jogador desce então às ruínas de Lisboa, que se encontram debaixo da plataforma que sustém a cidade futurista».
Ugo Volt divide-se entre um mundo mais real ? que inclui os escombros da capital ? e outro declaradamente fantástico, onde proliferam selvas repletas de improváveis criaturas. A jogabilidade deste título português aproxima-se, à vez, do género shooter ? tão disseminado por jogos como Half Life ? e de outros videojogos de acção e aventura, como Tomb Rider. As referências têm razão de ser: desde a adolescência que Rodrigo Varela dedica parte do seu tempo a alterar o software destes jogos, produzindo algumas das variantes mais apreciadas por jogadores de todo o mundo.
Ugo, a personagem central de Ugo Volt, é um protótipo ciborgue criado para ser clonado em massa mas revoltado contra a empresa que o concebeu. Rogério diz que «a personagem é, à partida, forte e fria». «Mas, à medida que vai encontrando [nos escombros] antigos discos de Amália e fotos de família, o lado mais humano de Ugo começa a aparecer.» Ugo é português? «Os seus pais adoptivos são portugueses», atira Rogério, em tom de brincadeira.
Ao longo das várias missões de Ugo Volt ? pensadas para durar entre 12 a 15 horas ? «os jogadores são confrontados com uma série de escolhas morais» decisivas para o desfecho do jogo. Para aumentar o seu valor de replay, o jogo «terá três finais alternativos», garante Rogério.
Chegada à Xbox dificultada
Nem tudo tem sido fácil no trajecto de Ugo Volt rumo à Xbox 360. E se Rogério Varela tem arcado com a parte criativa, o irmão, Roberto, tem-se dedicado à vertente mais pragmática do projecto. «Liguei-me ao meu irmão e tive o papel de passar as ideias dele do conceptual para a realidade», conta.
À data, ainda não é totalmente garantido que Ugo chegue a ser lançado para a consola da Microsoft. A produção do jogo requer um investimento avultado e incomportável para os cofres da Move Interactive, apesar dos parceiros institucionais. Roberto diz, no entanto, que há contactos que com várias editoras internacionais e que existe mesmo a forte possibilidade de o jogo vir a ser «produzido por uma editora alemã».
Correr na Xbox 360, Ugo Volt já corre ? os últimos meses foram passados a adaptar o protótipo do jogo à consola da Microsoft. Agora, resta saber se chegará a fazer vibrar os comandos de jogadores nos quatro cantos do globo.


Artigo em Revista Sexta












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